Acordei,e estava no corpo dela.Não sei o porque,e nem como,mas estava lá e não tinha nem ao menos um grito preparado na garganta para exprimir a retumbância de meu coração.
Cabelos ondulados e castanhos caíam suavemente sobre meus ombros,e embora não pudesse ver o efeito que eles tinham sobre meu rosto,quase podia sentir a graça e o bom cheiro de suas madeixas sobre mim.Seios perfeitos e volumosos pendiam preguiçosos em meu tórax,parecendo zombar da minha situação com sua beleza desafiadora.E da cintura delineada,passando pelas voluptuosas coxas até a planta dos pés,tudo era desesperadoramente lindo,moldado,sensual e desolador.
Levantei-me confuso(ou confusa.Nem eu sei definir.)e por pouco não caí da cama amarrotada,sentindo a diferença de altura do meu corpo anterior,escorreguei um pouco e corri para o banheiro da suíte,ansiando pelo espelho como uma top model.Cheguei,e quando encarei meu reflexo com a face caracterizada pelo profundo susto,vendo os olhos cor-de-caramelo e a boca carnuda e avermelhada,tive a prova final das duras palavras que ela me dissera noite passada.
Minha querida disse que se vingaria mesmo sob as constantes dúvidas colocadas por mim com relação a esse assunto.Ela ameaçou utilizar a infinidade de conhecimentos adquiridos em artes obscuras em benefício de torturar me e realizar sua doentia vendetta,que compensaria todo o tempo que a fiz mera prisioneira emocional.Para todos os efeitos,eu involuntariamente pedira para ser atingido por alguma maldição estranha.Comportar-me com o charme dominador de um anjo sangrento,e a leveza semi-apaixonada de um dandi cálido,transformando o amor dela em correntes flamejantes,só fez mal a mim no fim das contas.
Andei dentro do toilet,da esquerda para a direita e da direita para a esquerda mais vezes do que posso contar,e olhei muitas outras vezes para o maldito espelho que teimava em contrariar meu desejo reverberante.Depois de muitos minutos parei em frente á este,cansado e querendo encarar a notícia inevitável com um impossível olhar otimista,piorando meu tormento:Olhando-me(coisa estranha de se dizer…),comecei a sorrir maliciosamente num inusitado ataque de narcisismo incompreensível,consequentemente passando os dedos por toda a extensão de meus lábios e meu corpo,e contornando cada nuance ja conhecida com um olhar admirado e feminino.Eu redescobria uma paixão.
Um interruptor perdido em minha cabeça disparou sozinho e voltei á minha exasperação.Não poderia deixar minha psiquê virar uma “casa de bonecas” assim tão facilmente e ceder meu território á invasora mental
recém-nascida das lembranças atreladas áquele lar corpóreo.Saí do recinto e corrí pra fora do quarto tropeçando nas próprias pernas,para ou acordar do pesadelo ou fugir daquela inóspita realidade.
Não consegui correr muito.Meia dúzia de passos velozes e dei de cara em algo firme,porém macio,que me fez hesitar dando alguns pulinhos para trás e quase cair vergonhosamente.Abri os olhos e foquei a visão após o acidente,sem existir Deus ou Diabo no mundo que me fizesse crer no que eu via.
Era eu.Não,era ela.
Estagnada no corredor,dentro de meu original corpo e sorrindo com opulência,minha amada tinha uma novíssima imponência que ostentava,orgulhosa,diante de mim.Tremi,sentindo um infame medo de quais loucuras aquela garotinha em forma masculina pretendia fazer comigo.
Com simplicidade carinhosa,ela pegou com firmeza em meus ombros e chegou mais perto,fazendo-me provar o calor de seu peito em meu rosto,ou vice-versa.Não eram necessárias palavras ou estridências,já que o clima do momento tinha todas as respostas que fizeram com que eu entendesse a vontade do meu amor.Eu,que desde o início desse acontecimento bizarro não conseguira ou tentara pronunciar uma sílaba,disse em voz sexy e frágil um belo “eu te amo” e na sequencia abracei fortemente a vingativa paixão,fazendo encontrar seios e peito rijo numa aceitação punidora do destino.Mais do que nunca,era hora de amar.
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