Que o sangue humano não se coagule
Na incerteza e na baixeza do ser.
É uma prece que rogo ao ver
O sapo parado. “O sapo que não pule!”

Se ele não pular ele há de ver…
Terei de quebrar o que lhe pule
Na cabeça, o que lhe coagule
Na mente infanta do ser.

Meu sapo! Meu sapo boi! Quer ver
Uma doce perereca ou rã que pule
Só de te escutar o coaxar? Pois tem que ser

Um sapo muito obediente: não pule
Quando for pego! E se for para ser
Um sapo malcriado! Que seu sangue coagule.

Oh! Meus dedos do pé… Como pude me esquecer de postar tão importante data?
Dia 23 de Abril foi o dia do Mundial do Livro.

Vai aí uma pequena expressão que encerra está questão:

Meus olhos, nos teus, abertos…
Teu cheiro em mim a esparzir as flores…
São tuas páginas milhões de odores
E teu corpo o meu clarão desperto.

Tu és meu sábio conselheiro, amigo.
Meus momentos de cruel solidão
São por ti beijados. Minha mão,
Na tua, posta a destronar Perigo.

Um velho a viajar nas letras
Tem o mesmo gosto das naus.
Pois a tua capa dura, preta,

Que preserva a tua riqueza, o teu tesouro,
Conta-nos a história de Odisseu, Menelau
E nos faz voltar à época dos louros.

Minha Roma que não vi queimar por Nero,
Minha Grã-Bretanha que não vi buscar Graal.
Minha Grécia que não vi nascer de Homero
E meu Brasil que foi consorte de Portugal.

Todos estes reinos, estás histórias…
Que não vi em carne ou com olhos vivos,
Vejo, agora, elas dispostas em livros
Ocultando a ação, mas mostrando as glórias.

Acordo em meio à madrugada. Dos meus poros exalam-se sonos, sonhos de peças e desenganos. Vou direto, lento, semi-acordado até a cozinha, minha geladeira emite um som barulhento, é constante. A Constancia me trava, quero poder dormir e voar com o vento. Em meio à uma quente madrugada. Madrugada de 25 de Dezembro de 1914. Paz exala no ar e meus poros exalam sono. Lembro-me de uma guerra, será que acabou? Lembro-me de rifles e metralhadoras, guerra do futuro que a paz apagou. Mas será que existia geladeira nesta guerra do futuro? Sim… Lembro-me agora, era ano passado, notícia de primeira: “’DOMELRE’ invade o mercado, chegou para ficar. Arrefecido por meio de uma bomba de calor de duas fases. Quente? Frio? Porque calor se ELA serve para resfriar?”.
É madrugada de 25 de Dezembro de 1914 e eu não consigo dormir. Estou sozinho em casa, sozinho em um dia festivo? Não, sou judeu, ouço falar da salvação que passou, veio carregada de sonhos e esperanças… Meus poros exalam sono, sonhos iguais ao deste homem, mas era homem? Porque o cabelo distante, longo, caído? Era moda em sua época. Ainda espero a salvação. Se ele passou trazendo sonhos e esperanças, eu também tenho sonhos, tive sonhos, agora tenho sono, espero dormir.
Temo abrir a geladeira, a paz exala no ar, a geladeira é fria, o frio acorda e tira este gostinho aconchegante de sono. Sonhei que estava numa guerra, sou alemão. Era guerra até o momento da paz. Paz na guerra! Guerra na Paz! Guerra e Paz! Mas isso é russo e não alemão! “Fritz”! “Fritz”! Gritavam o inimigo e o cheiro do tabaco se misturava a paz, pode o homem querer mais que o fumo?
Conheci vários homens neste sonho, um francês me disse que se escolhe ou o tabaco ou a mulher. Hoje eu escolhi o tabaco, deixo a mulher para amanhã. Que cheiro doce! Ouço barulho de tosse, estou no meu sonho? Não! Agora acordei!
Estou com medo!
Guerra com cheiro de paz. Observo as brechas na tática de defesa, faltam-lhes algumas provisões… Devemos pedi-las como forma de boa vontade e selo de paz? Não! Eles sabem de mais. Estou com medo, mas o vinho é quente e a noite é fria. Por que eles estão felizes? Quem foi este Nazareno? Eu já ouvi falar, dizem que ele nos deixou um Deus na terra? Ele pediu paz, meu país cedeu! Os inimigos não concordaram. Ouvi dizer que será um dos motivos de nossa vitória! Deus está do nosso lado? Deus! Oh! Deus! Como o vinho deles é bom! É francês? Inglês? Não importa. O vinho é bom. O tempo passou, vi uma bela partida de futebol! Vitória da Alemanha! Isso é como ver uma final de copa? Sim! Pode ser a nossa última! Ano seguinte, dois anos depois da geladeira. Agora eu acordei. Nossos mortos não mais têm o privilégio do enterro. Duraram cinco dias, cinco dias com cheiro de paz, gosto de tabaco, gosto de vinho.

Quando acordo, Nix, já saindo,
Deixa uma mensagem, sorrindo,
E diz que me velou o quanto pôde.

Eu agradeço então esta minha amiga
E vou sentindo a leve e doce cantiga
Do acordar, em minha ode.

Vejo Eos, a bela, os céus colorindo
Com alguns toques de seus dedos mágicos
E ouço os seus clamores trágicos
De seus amores, que ela vem sentindo.

Abrindo então as portas da manhã,
Vai seguindo com o Lampo à frente
E vem Hélio, como um pirilampo ardente
Desenrolando feito um fio de lã.

Deitado na jangada, à margem do rio,
Um belo poente meus olhos consagram.
Sinto o hálito, docemente, do vento frio
E das leves brisas que me afagam.

Louvo aos deuses, louvo a Hespéra,
Que do poente vespertino cuida e zela.
Ela, que meiga, nos céus me espera
Para poder compartilhar sua tela.

Que pinta e põe a cor do rubro
Forte, vai então enegrecendo
E deixa a cor, suave, morrendo.

Cuida então de ir-se embora
E eu na jangada me cubro
Para dormir. Pois já é hora.

Como uma história muitas vezes contada
Perde toda a sua magia perante o ouvinte,
A presença de um falso deus, por mais recatada,
Também perde o seu teor e o seu requinte.

Um Deus… O Deus verdadeiro é como uma história
Contada a uma criança animada e apaixonada,
Vem com a esperança de uma nova vírgula colocada,
Onde só vai aumentar e melhorar a glória.

Como o cego, que usa de seus outros sentidos para ver, os olhos da alma nos são tapados por uma venda de metal. Por mais que tentarmos tirá-la, ela não sairá por completo e pode até acabar apertando um pouco mais. Devemos aceitá-la e aprender a viver com ela. A verdade é o impossível, não nascemos para conhecê-la, pois nada que vive tem este dom. Resta crermos que teremos tal evolução após a morte, crença que nos trás esperança, algumas vezes inevitável.
O que é, é e já foi dito! Humanitas, Borba nos ensina uma verdade, uma grande verdade… O que é, é! Mas como provarmos que é uma verdade se não nascemos para conhecê-la? Se dissermos que Thor provoca trovões durante as tempestades, todas as vezes que os trovões soarem, surdos, na tormenta, será motivo para crermos em sua existência, será mais do que motivo, será prova! Isso já disse um antigo filósofo de bigode, pois a barba não faz o filósofo.
E até em Camões, que cita a verdade que nas coisas anda, que mora no visível e no invisível, sabe que a verdade não se dissimula, mas anda aberta como um livro sacro, aberta como as pernas do descaso, esperando apenas um homem a vir fecundar… E quantos homens a tentaram e a quiseram por consorte? Muitos! Milhões! Mas nem um vivo o pode, pois a humana virtude é não ter virtudes. A humana virtude é a morte!

Numa espera que só faz sofrer,
Vejo guerra batendo-nos a porta,
Mas eu não atendo. Mortas
De medo as minhas pernas ficam a tremer.

Morta e morto! Os conveses dos navios
Negreiros vêm ao cais bater
E as esferas do tempo trazem ventos frios,
Memórias de chorar e de sofrer.

Lembro-me da composição do carvão,
Junto ao salitre a ao enxofre. Ambos misturados
Numa mescla de pó e de sonho alemão.

Ou pode ser um sonho de olhos puxados…?
Não importa de quem foi tal composição,
Nem importa a desgraça dos desventurados.

Se a Alma, após a morte, age e pensa?
Eu duvido! Seria muito duro o castigo,
Não haveria nem maior, pior sentença…
O Retórico estava errado, mas eu não ligo.

Sim! É verdade que não posso afirmar
Com grande certeza, que a Alma não pensa
Após a morte, mas imagine esta crença
Falsa e verá a dor sempre continuar.

A dor só vem do pensamento e do pensar,
Pensar é o nosso maior crime, pecado…
E é também a punição mais severa.

“Eu penso e logo existo”! Amar
É fruto do pensamento malogrado.
O fraco pensa e o sábio espera…

Acordei,e estava no corpo dela.Não sei o porque,e nem como,mas estava lá e não tinha nem ao menos um grito preparado na garganta para exprimir a retumbância de meu coração.
Cabelos ondulados e castanhos caíam suavemente sobre meus ombros,e embora não pudesse ver o efeito que eles tinham sobre meu rosto,quase podia sentir a graça e o bom cheiro de suas madeixas sobre mim.Seios perfeitos e volumosos pendiam preguiçosos em meu tórax,parecendo zombar da minha situação com sua beleza desafiadora.E da cintura delineada,passando pelas voluptuosas coxas até a planta dos pés,tudo era desesperadoramente lindo,moldado,sensual e desolador.
Levantei-me confuso(ou confusa.Nem eu sei definir.)e por pouco não caí da cama amarrotada,sentindo a diferença de altura do meu corpo anterior,escorreguei um pouco e corri para o banheiro da suíte,ansiando pelo espelho como uma top model.Cheguei,e quando encarei meu reflexo com a face caracterizada pelo profundo susto,vendo os olhos cor-de-caramelo e a boca carnuda e avermelhada,tive a prova final das duras palavras que ela me dissera noite passada.
Minha querida disse que se vingaria mesmo sob as constantes dúvidas colocadas por mim com relação a esse assunto.Ela ameaçou utilizar a infinidade de conhecimentos adquiridos em artes obscuras em benefício de torturar me e realizar sua doentia vendetta,que compensaria todo o tempo que a fiz mera prisioneira emocional.Para todos os efeitos,eu involuntariamente pedira para ser atingido por alguma maldição estranha.Comportar-me com o charme dominador de um anjo sangrento,e a leveza semi-apaixonada de um dandi cálido,transformando o amor dela em correntes flamejantes,só fez mal a mim no fim das contas.
Andei dentro do toilet,da esquerda para a direita e da direita para a esquerda mais vezes do que posso contar,e olhei muitas outras vezes para o maldito espelho que teimava em contrariar meu desejo reverberante.Depois de muitos minutos parei em frente á este,cansado e querendo encarar a notícia inevitável com um impossível olhar otimista,piorando meu tormento:Olhando-me(coisa estranha de se dizer…),comecei a sorrir maliciosamente num inusitado ataque de narcisismo incompreensível,consequentemente passando os dedos por toda a extensão de meus lábios e meu corpo,e contornando cada nuance ja conhecida com um olhar admirado e feminino.Eu redescobria uma paixão.
Um interruptor perdido em minha cabeça disparou sozinho e voltei á minha exasperação.Não poderia deixar minha psiquê virar uma “casa de bonecas” assim tão facilmente e ceder meu território á invasora mental
recém-nascida das lembranças atreladas áquele lar corpóreo.Saí do recinto e corrí pra fora do quarto tropeçando nas próprias pernas,para ou acordar do pesadelo ou fugir daquela inóspita realidade.
Não consegui correr muito.Meia dúzia de passos velozes e dei de cara em algo firme,porém macio,que me fez hesitar dando alguns pulinhos para trás e quase cair vergonhosamente.Abri os olhos e foquei a visão após o acidente,sem existir Deus ou Diabo no mundo que me fizesse crer no que eu via.
Era eu.Não,era ela.
Estagnada no corredor,dentro de meu original corpo e sorrindo com opulência,minha amada tinha uma novíssima imponência que ostentava,orgulhosa,diante de mim.Tremi,sentindo um infame medo de quais loucuras aquela garotinha em forma masculina pretendia fazer comigo.
Com simplicidade carinhosa,ela pegou com firmeza em meus ombros e chegou mais perto,fazendo-me provar o calor de seu peito em meu rosto,ou vice-versa.Não eram necessárias palavras ou estridências,já que o clima do momento tinha todas as respostas que fizeram com que eu entendesse a vontade do meu amor.Eu,que desde o início desse acontecimento bizarro não conseguira ou tentara pronunciar uma sílaba,disse em voz sexy e frágil um belo “eu te amo” e na sequencia abracei fortemente a vingativa paixão,fazendo encontrar seios e peito rijo numa aceitação punidora do destino.Mais do que nunca,era hora de amar.

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